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NUTRIÇÃO & SAÚDE

Alimentação Consciente, Informações consistentes, Escolhas benéficas

Mude a sua vida mudando o que está no seu prato

 

Jacqueline Guerra, naturóloga, coach de saúde & bem-estar e jornalista

20 de março de 2018

Comer é um ato instintivo e é também uma escolha, certo? Então, como conciliar nossos desejos e vontades, satisfazer nosso paladar e nossa busca por prazeres gastronômicos, nossos hábitos culturais e familiares com a alimentação consciente e nossas necessidades nutricionais e fisiológicas? A Naturologia propõe alguns conhecimentos para essa reflexão.

A alimentação consciente é um dos pilares da boa saúde e bem-estar e tem um grande impacto em nosso humor e saúde. Sendo assim, acredito que essa reflexão seja bem importante para embasar nossa percepção sobre as questões que envolvem a indústria alimentícia e a compreensão de que nosso consumo impacta outras esferas além das individuais como o meio ambiente, a economia e a política.

Atualmente, existem diversas dietas divulgadas como tendências para diferentes finalidades. São tantas informações, até mesmo contraditórias, que é fácil ficarmos confusos sobre quais alimentos são os mais saudáveis e adequados para nós. Alguns são apontados como vilões, de acordo com alguns pontos de vista, e ao mesmo tempo defendidos por outros especialistas como saudáveis. E agora?

Base da alimentação saudável

Um consenso, encontrado em diversos estudos e pesquisas, é que a base de uma alimentação saudável é composta por alimentos integrais, orgânicos e minimamente processados – vegetais, frutas, grãos. Sendo assim, é interessante termos clareza sobre a diferença entre alimento in natura e produto alimentício. São diversos interesses econômicos e mercadológicos que giram em torno disso, mas precisamos ter ciência de que produtos que contêm tantos aditivos químicos como sabores artificiais, corantes e conservantes não são alimentos reconhecidos e facilmente metabolizados pelo nosso organismo. Muitos produtos industrializados possuem excesso de sal, açúcar e gordura trans e são embalados e divulgados com uma publicidade colorida e atraente, para se tornarem “irresistíveis”. Mas é desse excesso de toxinas, que a Ayurveda chama de Ama, que podem surgir diversos desequilíbrios em nosso organismo.

O tema dos alimentos transgênicos também torna urgente nos posicionarmos a respeito. Sabemos realmente o que significa ingerir um alimento modificado geneticamente?

Desperdício

Outra questão importante: teremos comida para todos os bilhões de habitantes nas próximas décadas com esse formato atual de agricultura e produção industrial? Em 2017, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil alertou que, anualmente, 1,3 bilhão de toneladas de comida é desperdiçada ou se perde ao longo das cadeias produtivas de alimentos. 54% do desperdício acontece na fase da produção, manipulação, pós-colheita e armazenagem. O restante (46%) ocorre nas etapas de processamento, distribuição e consumo.

Sendo assim, podemos adotar algumas medidas de consumo como comprar a granel reduzindo as quantidades, fazer um planejamento das refeições e aprender sobre manipulação e conservação dos alimentos além do reaproveitamento de sobras na cozinha.   Aliar tudo isso ao prazer de cozinhar com certeza é um fator que contribui para sabermos o que estamos colocando na mesa e fazer da refeição um momento de satisfação.

“Nós somos o que ingerimos.
Mude a sua vida, mudando o que está no seu prato.”

A alimentação na Naturologia

Na Naturologia, estudamos a Trofoterapia, a Nutrição Ayurvédica e a Dietoterapia Chinesa, sistemas que utilizam o alimento e a alimentação como possível prevenção e tratamento de doenças e que indicam alimentos de acordo com a constituição de cada pessoa e de sua condição de saúde.  Assim, uma dieta personalizada tem mais chances de nos oferecer exatamente o que precisamos.

A Ayurveda  e a Medicina Tradicional Chinesa reconhecem que os alimentos vivos, não adulterados e consumidos in natura contêm um alto nível de energia vital – o prana ou o Qi – e nos trazem mais vitalidade e disposição.

Ambas as tradições também falam sobre as circunstâncias físicas e mentais ligadas ao momento das refeições. Como comer é tão importante quanto o que comer. O Mindful Eating ou alimentação consciente é um programa que ensina a cultivar atenção plena sobre o momento presente, neste caso sobre as sensações ao comer e os sinais corporais associados à fome, à saciedade, às reações do corpo e aos pensamentos, emoções, estados mentais e aos hábitos alimentares. Muitas pessoas podem ter o hábito de comer para aliviar ou amortecer sentimentos e, muitas vezes, não perceberem isso. Assim, a prática da alimentação consciente traz uma percepção maior sobre a diferença entre sentir fome e vontade de comer e de nossos impulsos e reações, permitindo mais opções de quais são nossas melhores escolhas.

Ayurveda

Nesse aspecto, a Ayurveda também promove a importância da respiração e de um ambiente calmo para as refeições. Além da nutrição bioquímica, nossa consciência também se alimenta das vibrações percebidas pelos cinco sentidos: visão, audição, paladar, tato e olfato. E, portanto, é essencial escolher o que vemos, escutamos, cheiramos, tocamos e comemos para nutrir nossas células e nossa mente.

Também precisamos observar a sabedoria do nosso próprio corpo, que sempre deixa sinais e nos revela se algo não foi bem digerido e metabolizado. Com o tempo, a gente passa a reconhecer que determinados alimentos não nos fazem bem. Às vezes, isso dura uma fase e, assim que restabelecemos nosso fogo digestivo, conhecido na Ayurveda como Agni, conseguimos consumir o mesmo alimento novamente.  Outras vezes, descobrimos que temos alergias ou intolerâncias alimentares e isso pode até gerar sérios desconfortos.

Uma vez que a saúde surge da capacidade do corpo de digerir os alimentos adequadamente, a importância de melhorar o Agni (fogo digestivo) e eliminar Ama (toxinas) também constituem a base da Ayurveda. Esse processo de intoxicação pode afetar nosso organismo causando desequilíbrios e deixar a nossa mente turva. Os procedimentos de desintoxicação das terapias ayurvédicas são bons aliados para cuidar dessas condições de saúde.

Combinação de alimentos

A digestão é mais importante do que a nutrição, já que é essencial ter boas condições de absorver e assimilar os nutrientes ingeridos. A Ayurveda orienta ainda sobre as melhores e piores combinações de alimentos: algumas favorecem a digestão, enquanto outros alimentos juntos dificultam o funcionamento do nosso metabolismo.

A Ayurveda se fundamenta com base em três gunas – sattva, rajas e tamas, que representam as qualidades presentes nos alimentos, na natureza, nas ações, nos nossos corpos e mentes. Tamas está ligado à inércia; Rajas se relaciona com movimento; e Sattva traz equilíbrio e harmonia. Portanto, incluir alimentos satvicos é um dos princípios para uma boa saúde. Outro conceito importante é o equilíbrio dos três doshas (constituições)  – vata, pitta, kapha – que também pode ser feito por meio da combinação de alimentos. A partir de nossa constituição física, identificamos quais alimentos são mais compatíveis e quais devemos reduzir ou excluir de nossa dieta.

Os sabores – doce, amargo, salgado, pungente, amargo e adstringente – também são considerados importantes para determinar o efeito que os alimentos, especiarias e ervas terapêuticas podem causar sobre o equilíbrio do corpo, mente e espírito.

A alimentação antioxidante e anti-inflamatória também são formas de estabelecer uma dieta para melhorar condições de saúde.

Sempre achei que essa temática, tão fundamental para a evolução da nossa saúde e desenvolvimento, deveria fazer parte do nosso currículo escolar. Por que não deveríamos saber desde pequenos as propriedades nutricionais dos alimentos, como plantá-los e ter contato com todas as etapas de preparo das nossas refeições?

Informações consistentes

Ainda bem que temos diversos caminhos para pesquisar e encontrar informações a respeito. No livro Kiss the Grown: How the Food you Eat can reverse Climate change, heal your body and save our world (Beije o Solo: Como a Comida que você come pode reverter a mudança climática, curar seu corpo e salvar o mundo), o autor Josh Tickell fala sobre uma dieta agrícola regenerativa que alimenta o solo e pode reverter o aquecimento global, promover a colheita de alimentos saudáveis ​​e abundantes e eliminar as substâncias venenosas que prejudicam o nosso planeta.

Pra continuar essa reflexão, deixo os links do Guia Alimentar para a População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde, e do texto Manifesto da Comida de Verdade ou Comer como Ato Político, um artigo de Elaine de Azevedo que explora muito bem essa questão e é uma leitura essencial para quem quer saber os impactos de nossas escolhas alimentares e como ser um consumidor mais consciente.

Deixo aqui algumas das fontes que realmente me inspiraram a entender que todos nós podemos fazer uma diferença real. Se quiser saibar mais como a Naturologia pode auxiliar a ter uma relação mais equilibrada e consciente com as escolhas alimentares, clique aqui.